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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

23
Fev17

...

By, JUX

Podia só saciar o corpo. Deixar a roupa cair aos meus pés e ficar assim. Despida de mim. Podia esperar que o meu corpo gritasse pelo teu. Podia só saciar o corpo e esquecer o que ele sofreu. Podia esperar que as nossas respirações acelerassem; que os nossos corações se descompassassem e que as nossas mãos se tocassem. Podia só saciar o corpo. Só o corpo. Exibir-te as formas sem pudor. Balancear-me nas curvas e pedir-lhes o último tango, por favor. E dançaríamos. Se dançaríamos. Só os dois. Numa coreografia perfeita. Ao ritmo do nosso desejo. Acompanhados pelo nosso beijo. Podia deixar-me embrenhar pelo toque das tuas mãos sobre a minha pele. Da pele nua, lembras-te? E assim saciava o corpo. Só o corpo. Assim. Junto a mim. Podia a tua pele vestir a minha pele. Vesti-la de desejo. Podiam as tuas mãos adivinharem-me as formas e a tua boca demorar-se no meu beijo. Podia o teu toque apagar-me as imperfeições e fazer-me sentir o ser mais perfeito do universo. Podíamos ser isso mesmo. Podíamos ser mesmo isso. Perfeitos. Podia pedir-te um beijo. Receber-te nos meus lábios ávidos de desejo. Podia perder as maneiras. Descer da compostura e deixar entrar a loucura. Podia pedir-te baixinho, que me possuísses devagarinho. Ou então podia olhar-te nos olhos, sem dó nem piedade. Pedir-te que, esta noite, fossemos feitos de verdade. Podia ser mais uma noite. Podia desejar-te com calma. Podia só saciar o corpo mas continuava a faltar a alma.

podia ser23.02.2017.jpg

23
Fev17

Talvez ainda sobre amor

By, JUX

Tinha marcado mesa para as dez. Gostava de jantar tarde para poder apreciar a noite a deitar-se. Quando ligou para fazer a reserva, tinha pedido uma mesa junto à janela. Era assim que apreciava os outros. Sozinha. Do lado de dentro do vidro. Era exatamente assim gostava de estar. No recanto da vida. Sem se deixar ver, mas atenta ao mundo. Gostava de imaginar as histórias das pessoas que passavam no passeio junto à janela do restaurante. Não precisava de ser aquele passeio e aquele restaurante. Podia ser uma qualquer rua e uma qualquer mesa – desde que a rua tivesse passeio e desde que a mesa ficasse junto à janela.

— Para beber, pode ser um copo de vinho tinto, por favor. Do Douro. – Disse, simpaticamente, ao empregado de mesa.

Era domingo. Tinha chovido a tarde toda. As luzes dos candeeiros faziam-se refletir nas poças de água, deixando a cidade ainda mais iluminada, naquela noite. Lá fora – do lado de fora da janela, daquele restaurante -, a cidade ia recolhendo aos poucos. Mas ainda se podia ver alguma vida. Do lado de fora, passava, agora, um casal de mãos dadas. Gargalhavam de alguma coisa que era impercetível dali – do lado de dentro da janela -, mas também não era preciso saber o motivo de tanto riso. A felicidade estava-lhes estampada no rosto. Aquelas gargalhadas que saíam em uníssono eram só mais uma forma de dizerem, um ao outro, que se amavam. Para quê palavras quando o amor é feito de gestos? Do outro lado da rua, passava uma rapariga. Escondida, atrás da sua gigante gola branca, os cabelos longos de pontas claras ainda se deixavam ver. Era uma rapariga bonita. Havia de se fazer uma linda mulher. Daquelas mulheres nas quais até um par de calças rasgadas e uma camisola de mangas largas de lã lhes assenta magnificamente. Deus queira que não se estrague. Que a vida lhe sorria sempre porque ainda vai fazer sorrir muitos homens. De paixão. De amor. De desejo. Por ora, é só uma rapariga cheia de frio escondida atrás da sua gigante gola branca.

A cidade preparava-se para acalmar. Acalmar de mais um fim de semana onde, certamente, deixara histórias para recordar. Para contar. E outras tantas por viver. Por nascer. Por acontecer. Assim é a vida na cidade. Aliás, a bem da verdade, assim é a vida. Uma sucessão de histórias que fazem as histórias das gentes. E assim ia a vida, naquele domingo, do lado de fora da janela, daquele restaurante.

Sofia fora interrompida pela chegada da comida. Agradecera ao empregado de mesa e, de seguida, pegara no copo de vinho para inundar as papilas gustativas com aquele sabor frutado do qual aprendera a gostar há uns anos. Naquela noite, tinha escolhido comer bife de atum em cama de vegetais gratinados. A cadeira que sobrava na mesa, onde se sentara, permanecia vazia. Fizera acompanhar-se apenas de si mesma naquela noite. Tal e qual como acontecia nas noites em que não lhe apetecia ficar em casa e em que precisava de estar consigo. Não era uma mulher solitária. Muito pelo contrário. Mas precisava, cada vez mais, de estar consigo.

E estava. Havia dias em que não precisava de mais ninguém. Aprendera a não precisar de mais ninguém. Tivera algumas relações ao longo da sua vida. Umas acabaram porque assim tinha de ser. Outras terminaram e fizeram-na sofrer. A vida foi-lhe ensinando que tudo tinha o seu tempo. Até o sofrimento. Agora, que pensara nisso, talvez lhe tivesse dispensado demasiado tempo. Mas percebera que fora o tempo suficiente para renascer. Para se tornar na mulher que, hoje, era. Crescida. Já não sofrida. Serena. Sim, era isso. Era serenidade que sentia dentro de si. Serenidade com a vida e, acima de tudo, serenidade com ela mesma. Ainda não tinha condenado o amor, definitivamente, mas tinha-se conformado com o facto de que, talvez, ela tivesse sido escolhida pelo criador para dar o seu imenso amor aos amigos, à sua família, ao seu cão – que insistia em aninhar-se todas as manhãs aos pés da sua cama – e a todos os que a rodeassem. Já se tinha conformado que aquele tanto amor que sentia, se calhar, era demais para uma pessoa só e talvez, por isso, aquele amor tivesse de ser repartido pelos que considerava seus. Percebera que talvez não voltasse a chamar amor a alguém, mas isso, surpreendentemente, já não a fazia pensar. Tão-pouco a fazia sofrer. Aceitara essa condição porque descobrira que era possível ser-se, verdadeiramente, feliz assim. Tal como ela era.

Achara que o bife de atum, hoje, estava particularmente saboroso. Desviara a atenção, novamente, para o lado de fora da janela. Voltou à vida dos outros, esquecendo-se, por mais uns minutos, da sua. Era uma mulher feliz.

— Peço desculpa estar a interromper o seu jantar – disse, um pouco atrapalhado, o empregado de mesa -, mas o senhor que está naquela mesa insistiu muito para que lhe entregasse este papel.

Tivera tempo de limpar a boca antes de agradecer ao empregado de mesa. Pousou o guardanapo de pano – que se encontrava, até àquele momento, depositado no seu colo – em cima da mesa e agarrou, involuntariamente, no papel que vinha dobrado em quatro. Olhou em frente. Pôde ver, numa mesa em frente à sua, um homem que a observava. A principio sentiu-se incomodada. Invadida. Intimidada. Mas aquele olhar, a forma como ele a observava, inexplicavelmente, acalmou-a. Ele, um homem de tez séria, deixou fugir um sorriso subtil assim que os seus olhos se cruzaram. Esticou, ligeiramente, o braço como quem dá a deixa do que fazer a seguir. Aquele gesto sugerira a Sofia que abrisse o papel e o lesse.

Sem conseguir desviar o olhar daquele homem, Sofia abriu o papel e leu-o, apressadamente. Demorou alguns segundos até fixar o que estava lá escrito. Voltou a dobrar o papel e olhou-o. E ali estava ele. Desta vez, a tez séria desfez-se num sorriso rasgado quando pode confirmar que Sofia se levantara e se dirigia à sua mesa.

O caminho que separava as duas mesas deu tempo para Sofia repetir, mentalmente, as palavras que estavam escritas naquele papel. Podia jurar que as ouvira. Podia jurar que as ouvira pela voz daquele homem. Podia jurar que lhe conhecia a voz mesmo nunca a tendo ouvido. Podia jurar que lhe conhecia os sussurros junto aos seus ouvidos. Podia jurar que lhe sentia a respiração acelerada junto da sua pele. Podia jurar que o seu coração nunca deixara de acreditar por causa dele. Por ele. E de copo da mão, de sorriso no rosto e de passada firme, fechou os olhos e disse:

— Talvez a vida, hoje, se passe do lado de dentro da janela…

percebera23.02.2017.jpg

 

20
Fev17

...

By, JUX

Se eu te pudesse mostrar, por um minuto que fosse, o que me corre nas veias; se eu te conseguisse contar, por duas ou três palavras, o envolver das minhas teias. Se pudesses encontrar-te com os meus pensamentos, se pudesses estar com eles por uns breves momentos, ias conseguir perceber de que fibra é feito o meu querer. Ias querer desejar que o tempo não conseguisse mais esperar. Nem esperarias que o tempo cumprisse o seu tempo. Que o tempo desse tempo ao tempo. Se pudesses sentir, por um segundo que fosse, do que é feito o toque sobre a pele, dessa pele que espera por ser tocada, sentida e mimada; se pudesses experimentar a textura do meu sorrir, que só sabe sentir assim, sem principio nem fim; Se pudesses respirar cada poro da minha pele e ela te contasse os meus segredos, desejarias estar sempre por perto para acalmares os meus medos. Se pudesses estar por perto para sentires tudo isto, se pudesses só sentir, por um segundo; um breve segundo, porque é que eu não desisto; insisto e resisto, este momento deixaria de ser um tormento. Não seria mais uma luta contra o tempo. Se te pudesse sussurrar isto, um dia, ao teu ouvido, ias perceber que não havia mais nada a fazer. Restava-nos viver. Viver este querer. Querer este viver. Assim, até lá seremos uma luta de desejos, uma busca de corpos e uma promessa de beijos. Até o tempo cumprir o seu tempo. Até ser o nosso tempo. Seremos sempre almas que se conhecem, que se adivinham, que se aquecem. Almas que se querem, que se reconhecem e se merecem. Almas que ainda não se tocaram mas que já se viciaram. Sabes o que mais me vai custar? Os dias perdidos sem te amar. O que não te puder viver. Custa-me os dias que me faltarem para te poder ter. O que o tempo me tira de te aproveitar. Custa-me o tempo que esperarei para te poder amar. Custa-me os dias que nos faltam para viver. Custa-me saber que depois de te encontrar, só te terei até morrer.

sabes o que mais20.02.2017.jpg

20
Fev17

...

By, JUX

E aqui estou eu. Agarrada a uma folha de papel em branco – que vou rabiscando e riscando, escrevendo e apagando- em vez de estar agarrada à tua pele, ao teu cheiro; em vez de estar presa aos teus beijos. E aqui estou eu. A ocupar-me de mim em vez de estar ocupada em ti. Resta-me a noite. Gosto de navegar pela noite. Gosto de ser noite. Gosto dos sonhos antes dos sonhos. Gosto de sonhar antes de me restar dormir. Gosto de nos imaginar acordados. Podíamos ficar acordados. Rasgar a madrugada. Sermos boémios. Audazes. Capazes. Podíamos ser tanto. Podíamos ser tudo. À noite podemos ser sempre tudo. Mas a noite veio sozinha. Não te trouxe. Ainda não te trouxe. Trouxe com ela um manto de estrelas. Ficam-lhe sempre tão bem as estrelas. Vierem todas. E antes de adormecer, imagino-te, baixinho. É à noite que te imagino. É à noite que decoro cada poro da tua pele, que sei que gritará de prazer. De desejo. De querer. Antes de fechar os olhos, peço-te sempre um beijo. Mas tu nunca consegues dar-me só um beijo, pois não? Eu também não adormecia só com um beijo. Quero todos os beijos. Todos os que não demos. Todos os que ficaram por dar. Quero-os em cada centímetro da minha pele. Quero experimentar a que sabem. Quero-lhes saber o sabor. Antes de adormecer – vou adormecer no teu peito - quero fechar os olhos e só ouvir o som dos nossos sorrisos. Quero apreciar o som dos nossos corpos suados, molhados, agarrados, esgotados. Quero ser insana, quero ser profana. Quero cometer os mais belos pecados de amor. Quero pecar por amor. Quero pecar de amor. E saber que Deus nos perdoa a seguir. Que nos perdoa depois de adormecermos, num suspiro profundo. E, ali, seremos dois corpos que se esperaram. Que se encontraram. Que se amaram. Seremos paz, depois da luta. Seremos bonança depois da tempestade. Seremos dia, depois de termos sido noite. Seremos nós, depois de termos sido, apenas, eu e tu. Seremos o que quisermos. E seremos até onde quisermos. Ficas-me bem. Gosto dos sonhos que começam de olhos abertos.

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