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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

30
Mar17

...

By, JUX

Só hoje, apaixonei-me mais de uma dezena de vezes. Tem sido assim, quase, todos os dias. Receber com um sorriso o sol pela manhã, e não deixar de sorrir também nas manhãs frias. Só hoje apaixonei-me, uma, duas, três vezes. Cruzei-me com olhares misteriosos e imaginei sorrisos charmosos. Passei por mulheres lindas e imaginei-as nos braços de um homem forte. Dos homens, quis-lhe a certeza. O mistério. A conquista sem perderem o norte. Vou-me apaixonando assim. Com histórias que se cruzam comigo. Histórias que não minhas nem são de ninguém. São pedaços de vida, onde, por vezes, me abrigo. Só hoje, apaixonei-me mais de uma dezena de vezes. Imaginei finais felizes. Senti beijos que nunca serão dados, vivi em corpos que nunca serão negados. E assim vivo as histórias. Criando paixões assolapadas. Por pessoas, por lugares, por olhares. Por instantes de vidas cruzadas. Apaixono-me pelo o que me cativa. Pelo o que me faz prender o olhar. Esboço mais um sorriso. Daqueles que nos fazem corar. Só hoje apaixonei-me mais de uma dezena de vezes. Tem sido assim, quase, todos os dias. Desconfio que é isto que chamam (re)nascer. Deixar-me cativar pelo o que mantém viva e manter-me cativa no que me faz viver.

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27
Mar17

(Não) Ser filho único

By, JUX

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Sim, eu pertenço àquela parte geracional da população de filhos únicos. Os mimados. Os egoístas. Os que têm tudo de mão beijada. Não fui filha única por vontade dos meus pais. Aconteceu. Antes de mim, existiu um mano – que infelizmente faleceu bebé. Antes do mano, existiu ainda outra tentativa que também não chegou a ser bem-sucedida. Depois, vim eu. E creio que para quaisquer pais que queiram muito ter filhos, após passarem por algumas provações, quando percebem que a sua cria – aquela cria – vem ao mundo sã e sorridente, se agarrem a tudo e mais alguma coisa para a preservarem, a mimarem e a amarem. Fui filha única por acaso. Aconteceu. Fui a menina dos olhos deles – e, aos (quase) quarenta anos acho que ainda sou. Esta é a realidade com que fui, mais ou menos, obrigada a viver. No fundo, esta é a única realidade que sempre conheci.

Era suposto, agora, fazer uma série de considerações abonatórias pelo facto de ser filha única. Foi, também, essa a realidade que os meninos que tinham irmãos nos fizeram acreditar. «Não imaginas a sorte que tens em ter um quarto só para ti.» «Eu sou sempre o culpado das asneiras que o meu irmão faz.» «Os meus pais gostam mais dele do que gostam de mim.» Enfim! Poderia gastar, aqui, duas ou três páginas só com as coisas que nós – os filhos únicos – tivemos de ouvir. Fomos acreditando que ser filhos únicos não era uma cena fixe. Era quase como um estigma social. Era quase como se nascessemos com características diferentes dos outros meninos. Era como se, à nascença, nos escrevessem nas cédulas de nascimento que iriamos ser crianças mimadas, egoístas e que não saberíamos dar valor a nada. Fomos crescendo a tentar contornar essas características – que herdámos da sociedade – e fomos tentando refutar cada uma delas, rodeando-nos de pessoas, emprestando os nossos brinquedos e convidando os nossos amigos para dormirem no nosso quarto – que tínhamos só para nós. Talvez tivesse sido essa a melhor forma de compensarmos o facto de termos alguns privilégios que os outros meninos não tinham.

Não quero estar com falsas modéstias. Não é essa a minha pretensão. Sim, tive um quarto só para mim. Sim, é verdade que não tive de fazer cedências com mais ninguém. Pude brincar com todos os brinquedos até me fartar, pois não tinha ninguém para fazer queixinhas aos meus pais. Não sei o que é ter uma briga de irmãos, não faço ideia do que seja partilhar, todas as noites, o mesmo quarto e nem sequer imagino o que é levar um puxão de orelhas sem ter culpa nenhuma no cartório.

À parte disto tudo, sempre fui tentando contrariar este privilégio de ser filha única. Ia dizendo, para quem quisesse ouvir, que sim, que era filha única, mas preferia não o ser. Aconteceu. Mas ficava sempre com a sensação de que a maior parte das pessoas não percebia muito bem porque é que eu dizia isso – e, certamente, até ficaria a resmungar, entre dentes, o facto de me estar a queixar de barriga cheia.

Hoje, ainda mantenho a mesma opinião. Claro que já não vou a tempo de pedir um mano à minha mãe, mas sou a tia que pede às amigas que não deixem os seus filhos serem únicos e sou a mãe que gostava ter mais que um filho.

Hoje, ainda mantenho a mesma opinião. Mas, se calhar, as razões em que a fundamento são um pouco diferentes. Antes, quando me perguntavam – com ar de espanto –, afinal, porque é que eu não gostava de ser filha única, eu, prontamente, respondia – com o meu ar confiante – que, mais importante do que ter um quarto só para mim, era ter alguém para brincar nele; mais importante do que brigar era ter alguém com quem falar; mais importante do que poder comer o meu gelado preferido era ter alguém a quem dizer o quão delicioso ele era. E, assim, ia justificando – aos outros e a mim própria – a razão pela qual só era filha única por acaso. Um dia, percebi, pelas piores razões, o porquê de ter dito uma vida inteira que não queria ser filha única.

De uma filha que foi única, posso garantir-vos que mais do que ter desejado um irmão para poder partilhar as alegrias, desejei ter tido um irmão para partilhar as tristezas. A dor. Partilhar a dor. Partilhar as mesmas lágrimas, sentir o sangue do nosso sangue, ali, connosco, a atenuar-nos o sofrimento. A moderar-nos a dor. Porque, quando faltar as forças a um, faz-se uma transfusão anímica para o outro. Quando as lágrimas de um teimarem em cair, as mãos do outro servirão para as secar. Quando um precisar de descansar os olhos, o outro ficará de vigia. Podemos perder um pai, uma mãe, um avô ou uma avó, mas, enquanto tivermos um irmão ao nosso lado, a nossa outra metade continua lá. Firme. Inteira. Fui filha única por acaso. Aconteceu. Mas é sem mimo e sem egoísmo nenhum que vos digo que, melhor do que ter alguém com quem sorrir, é ter (sempre) alguém com quem chorar…

18
Mar17

...

By, JUX

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Hoje, fizeram-me uma pergunta. Uma simples pergunta. - Porque escreves? Acho que vos devo a resposta. A vós, que também se vestem das palavras - as minhas -, mas que, tantas vezes, são as vossas. Escrevo desde sempre – também contam aqueles guardanapos de café e os cantos das toalhas de papel dos restaurantes, não contam? Numa primeira análise escrevemos para nós. Escrevemos para fora o que sentimos cá dentro. Escrevemos, essencialmente, para nos conhecermos. A nós. Nós – que vivemos connosco, todos os dias, não nos conhecemos desde logo – e desconfio que uma grande parte das pessoas nunca se chegam, realmente, a conhecer. É quando te conheces a ti que começas a conhecer, verdadeiramente, o mundo. E é, aí, que começa a grande viagem. É aí que começas a fazer as pazes contigo. Porque acredito que todos tenhamos pazes a fazer connosco. Escrever permitiu-me isso – e ainda me permite. Por as coisas no sitio certo. Guardar o tem de ser guardado, deixar o que tem de ser deixado e consolidar o que tem de ser consolidado. Depois, bem, depois vem esta inquietude d’alma. Esta insatisfação natural que nos obriga a expressar, seja de que forma for. Acontece a todos aqueles a quem não lhes chega só «isto». Acontece quando o sentir é subcutâneo; quando transborda; quando não cabe mais no peito; quando tem de sair. Gosto de vestir as palavras. De lhes dar cheiro. De as tornar leves ou de lhes conferir dureza. Gosto desta sensação de sentir que são elas que me guiam, mesmo que continue convencida que sou eu que as encaminho. E por fim vem a mensagem. Vem o ensinamento que extraímos para nós. Encontramo-nos com as respostas que nem sabíamos que lá estavam. E vem, essencialmente, este prazer, no seu estado mais puro, que é saber que escrever deixa de ser um acto de solidão a partir do momento em que te apercebes que, afinal, escreves pelas mãos de tantos nós.

16
Mar17

Esta noite, serei tua

By, JUX

Esta noite, serei tua. Só tua. Deixarei o mundo lá fora para te receber, aqui dentro. Esta noite, viveremos o nosso mundo. No nosso mundo. Preciso de me perder em ti. Por ti. Preciso de me encontrar, perdendo-me em ti. Já apaguei as luzes. Resta-nos a luz das velas – que já crepitam, loucamente, como quem adivinha o que se vai passar. Não te preocupes. Deixarei luz suficiente para te encaminhar até mim.

Pus o meu melhor vestido. Aquele que deixa adivinhar todas as formas do meu corpo. Deste corpo que, hoje, será teu. Deixei o frasco de perfume em cima da cómoda. Não será usado, esta noite. Esta noite, o único cheiro que quero a perfumar a minha pele é o teu. Quero que cada poro absorva, sofregamente, as gotas do nosso prazer. Esse é o único perfume que quero usar, esta noite. O outro — o caro — fica em cima da cómoda. Não há essência mais perfeita do que o aroma dos nossos corpos juntos. Se pudesse, era essa a essência que usava, todos os dias, para perfumar a pele. A nossa essência. Será que conseguiria fechá-la num frasquinho? Há frascos tão lindos. Vou escolher o frasco mais bonito que encontrar. Prometo-te. Aquele que melhor condiz com as nossas peles. Amanhã, começo a procurar. Levarei comigo o cheiro da noite de hoje, para ter a certeza de que tudo fica a condizer. Depois, guardá-lo-ei no lugar do outro perfume — que deixarei de usar. Aquele, que hoje deixei em cima da cómoda. Não voltarei a precisar dele. Não, enquanto existir o teu cheiro, o teu corpo, a tua essência para me perfumar.

Calcei os sapatos de salto alto. Realçam-me as pernas. Definem-me os traços. Conferem mais elegância ao andar. É assim que te vou esperar, esta noite. Não carreguei muito no batom – vermelho, claro! Que outra cor podia ser? Mas também não o deixei esbatido. Há lá vermelhos esbatidos! Vermelho é vermelho. É vida, é cor, é paixão. E há lá paixões esbatidas! Paixão é paixão. Por isso, esta noite, pintei os lábios de vermelho. Ah! E já pus o champagne no frio. Quero-o com a temperatura ideal para quando chegares. Quase que consigo sentir os teus lábios — gelados — a percorrerem-me o pescoço até encontrarem o doce dos meus lábios — que aguardarão, impacientemente, pelo sabor amadeirado que o champagne, intencionalmente, deixará na tua boca. Beberei de ti. Dos teus lábios. Da tua boca. É assim que quero desfrutar da bebida, esta noite. Através do sabor dos teus beijos.

Quando chegares, não te inibas em despir-me. Aperaltei-me porque te quero receber bem. Mas o meu melhor está por baixo destas roupas. Por isso, não te inibas em despir-me. Elas já estão à espera de abandonar o meu corpo. Já estão à espera de me deixarem a sós contigo. Esta noite, não terei vergonha. E os preconceitos também os deixei lá fora. Esta noite, só nos convidei a nós. Sem roupas. Traremos apenas as nossas imperfeições que são, precisamente, o que nos torna seres perfeitos. Não me apaixonei por uma boca, por uns olhos ou por mais um corpo. Não. Não é disso que estamos a falar. Não é mais uma boca, porra! São os teus lábios, que esperaram este tempo todo para beijarem os meus. Não são mais uns olhos. Não! São os teus olhos. Os mesmos que me olharam na alma. E o corpo? Fosse apenas mais um corpo e não me eriçava a pele desta maneira. Fosse apenas mais um corpo e não me despertava a alma com esta certeza. É o teu corpo, caramba. E foi, precisamente, por todas as tuas imperfeições que me apaixonei. Por isso, não te inibas em despir-me as roupas. Serei, imperfeitamente, tua, esta noite.

Dançamos? Não há nada mais intimo do que a intimidade de dois corpos. Quero que me guies neste ondular, esta noite. Nunca dancei totalmente nua para ninguém. Mas, esta noite, desejo, descontroladamente, ser tomada nos teus braços – fortes e robustos – e guiada pela melodia do teu respirar. Será a única música que os meus ouvidos se permitirão ouvir. Dançamos?

E, quando já não aguentarmos mais, quando já não conseguirmos obedecer às regras da sensatez, seremos insanos. Chamaremos os instintos mais básicos, os mais antigos, os mais grotescos e daremos de comer à carne – esfomeada. Saciamos-lhe a gula, a sofreguidão, o desespero. Sem maneiras. Olhos nos olhos. Como um predador que encanta a sua presa. Mataremos a fome. A fome de nós. Em nós. Depois? Depois, sucumbiremos ao cansaço dos corpos – que recuperam o respirar, lentamente. Iniciaremos uma luta desigual. Assistiremos – lado a lado – à clemência dos corpos saciados e à demência das almas insatisfeitas. E, então, iniciaremos tudo, outra vez. Mas já não mataremos a fome da carne. Saciaremos a sede da alma. E os corpos obedecerão. Com calma. Com a vagareza de quem tateia o terreno pela primeira vez; de quem desbrava, com exatidão, o caminho mais seguro, porém o mais longo; de quem aprecia mais a viagem do que o destino. E, ali, ficaremos horas, dias, anos, uma vida. Uma vida inteira…

Esta noite, fui tua. Só tua. Por agora, apagarei as luzes. Mas não te preocupes. Deixarei luz suficiente para te encaminhar até mim… No dia em que fores verdade.

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