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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

10
Mar17

...

By, JUX

A primavera está a ficar pronta. Já despiu o casaco e mostra-se, agora, com roupas mais leves. Os dias também estão a ficar uns homenzinhos. Crescidos. Quem os viu, há dois meses, em que às quatro e meia da tarde já queriam ir para a cama, e os vê, agora, todos reguilas a pedirem para ficar acordados, todos os dias, mais um bocadinho, jura que não são os mesmos. Ficam para apreciar a vida. Para apreciar do que a vida é feita. Para verem a vida ganhar vida. É tempo de sair à rua. Sair para a rua. Encarar o sol de frente. Um sol que vem para ficar. Para nos aquecer até nos fazer transpirar os poros. Transpirar de viver. De querer viver. É chegada a hora de repor a ordem natural das coisas. Os animais começam a sair das suas tocas. Despertam de um sono letárgico. As árvores preparam-se para apresentar as suas vestes. Que lindas estão a ficar. Ostentam, orgulhosamente, o seu melhor verde. Os seus galhos ajeitam-se, convenientemente, para receber os seus mais fieis inquilinos. Vem de todos os lados e alguns veem de muito longe. Chegam de viagem, um a um. Desfazem as malas, apressadamente, para mais tarde afinarem o chilrear. É dessa forma que se despedem do sol. Todos os dias, ao final da tarde, saúdam-no no horizonte. O horizonte que, agora, acolhe o sol e que será o mesmo que o fará erguer, logo pela manhazinha. Despedem-se com um canto único. Vivo. Gosto do chilrear estridente como quem festeja sem motivo. Todos os dias, ao final da tarde, se festeja a vida nos melhores galhos. Todos comparecem. Todos, sem excepção. Estão contentes por terem voltado. Percebe-se no seu piar. Tivéssemos nós a capacidade para entender estes pequenos seres - a quem lhes foi dada a faculdade de voar – e, eu quase que aposto que lhes conseguia adivinhar as falas. Estão felizes. Felizes por terem voltado, por estarem rodeados da família e com a sua casa cheia de amigos. Todos comparecem. Todos, sem excepção. Estão felizes por estarem vivos e, acima de tudo, felizes por quererem estar vivos. E quando assim é; quando estamos perante a felicidade, no seu estado mais puro, não é preciso haver qualquer tipo de tradução. Juro, que sou capaz de lhes adivinhar as falas – tivessem eles a capacidade de falar e nós a faculdade de voar. Ali, nada mais acontece do que celebrar-se a vida, todos os fins de tarde. A vida chega, mais ou menos por esta altura. E, nós – os que não hibernamos nem imigramos para voltar na primavera –; nós, os que temos a mania que sabemos sempre tudo, devíamos aprender mais com estes seres, pequeninos -vestidos com casaquinhos de penas – a quem lhes foi dada a faculdade de voar. Tudo tem o seu tempo. E também eles – estes seres pequeninos vestidos com casaquinhos farfalhudos de penas – recolheram para um tempo de agasalho, de introspeção, de balanço, de crescimento. Claro que também o fazem por questões de sobrevivência, mas fazem-no, essencialmente, para se prepararem para voltarem com toda a sua força. Com os pulmões cheios de oxigénio para poderem ecoar as melhores notas no chilrear. Para estarem ainda mais fortes do que quando partiram. Assim deveríamos ser nós. Como estes seres pequeninos. Como a natureza. Também deveríamos repor a ordem natural das coisas. Sempre. E a ordem natural das coisas é sermos felizes. É celebrarmos a vida. Sim, todos os dias. Insistimos em ser contranatura, esquecendo, vezes demais, que também somos natureza. Sim, que tenhamos o nosso tempo. O tempo necessário para fazer o balanço, para recolher, para crescer. Mas que voltemos sempre. Renovados e com os pulmões cheios de oxigénio. Com vida para viver a vida. Para celebrar a vida. Porque a vida chega, mais ou menos, por esta altura…

a vida chega10.03.2017.jpg

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