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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

08
Abr17

...

By, JUX

Não serás perfeito. A tua pele, certamente, já não estará tão firme como há vinte anos atrás. Mas as pontas dos meus dedos também estão diferentes. São feitas de outra sensibilidade. Da sensibilidade perfeita para tatear a textura dos teus poros e reconhecer-lhes a vida. A que tens dentro de ti. A que carregas debaixo da pele. Mais do que tatear-te a pele, as pontas dos meus dedos querem tatear-te a vida. As estórias. Os cheiros de que és feito. Saber o te eriça os sentidos. A pele. Essa pele onde sei que vou encontrar marcas. Faz parte. São as camadas que foste sobrepondo sobre as feridas já citarizadas. Já não doem – tenho a certeza. E as marcas que ficaram? As que deixaram a pele imperfeita? Servem para te lembrar – sempre que olhares para elas – que as curaste. Que as fechaste. E uma ferida sarada é uma ferida sanada. Vou-te confessar uma coisa. As pontas dos meus dedos também já não procuram uma pele sem marcas. Isso não existe. Não agora. Depois de metade de uma vida vivida. E se te tivesse tocado há vinte anos atrás, provavelmente, seriam as pontas dos meus dedos a magoarem-te. A ferir-te a pele. A deixarem as marcas para mais tarde alguém as tatear. Prefiro conhecer-te a vida na pele do que te ferir a pele um dia na vida. Não serás perfeito. O teu corpo já não terá a leveza de há vinte anos atrás. Mesmo que trates dele – ou que optes por não tratar – posso garantir-te que será o corpo mais belo que terei o privilegio de conhecer. De sentir. De tocar. Porque? Porque sei que virás até mim despido de incertezas. Não chegarás à procura da definição de um amor perfeito. De um amor sem falhas. Não. Trarás, antes, a certeza de ficar. De querer estar. De querer ser. Trarás a certeza do toque. Aquele que te fará eriçar a pele. Que te fará correr sangue nas veias, que te oxigenará o cérebro e que te fará pulsar de vida. Trarás os sentidos apurados. Afinados. Trarás certeza nos sentidos. E serão sentidos com certeza. Não faremos apenas sexo. Mas também não faremos só amor. O amor estará nas pontas dos meus dedos sobre a tua pele menos firme. Deixarei amor em cada beijo – que depositarei na camada mais superficial dos teus lábios – que irão sorver o molhado da minha língua como se do melhor néctar se tratasse. Dar-te-ei de beber. Matarei a sede do teu querer. Deixarei amor em cada sussurro no teu ouvido – onde te confessarei os meus desejos mais insanos. Deixarei amor mesmo que te peça para foder. Sempre que te disser – despida de roupas e vergonhas – que te quero sentir de uma só vez, que preciso que me preenchas o vazio da carne, que me ocupes o espaço da alma e que não deixes nada por preencher. Sempre que te peça para que me enchas de ti, para que me completes o ser. Porque se te peço é porque te sinto. Não. Não faremos só amor. Tenho a certeza de que não faremos só amor. Porque os corpos nem sempre conseguem esperar. Às vezes, têm urgência em amar. Às vezes, o desejo urge. A carne pulsa. Os olhares despem-se. Às vezes, temos de deixar os corpos serem meros intermediários da alma. Deixar exorcizar os pecados da carne para purificar o sentir. Às vezes, é preciso ferir a carne. Feri-la de paixão, de desejo. Às vezes, é preciso gritar os orgasmos. Senti-los. Expurgá-los. Porque se te peço é porque te sinto. E, noutros dias, tenho a certeza que será amor. Será amor sempre que o teu toque me despertar os sentidos. Sempre que as tuas mãos percorrem o meu corpo – já desgastado. Sempre que me quiseres tirar as roupas e sempre que me aconchegares um casaco quente pelos ombros. Será amor sempre que me disseres «estou aqui» e sempre que me deres um beijo na testa. Sempre que adormecer encostada ao teu peito e sempre que me deres a mão no meio da rua. Será amor sempre que me sorrires e será amor sempre que te sorrir. Sabes? Eu não serei perfeita. O meu corpo já não tem a firmeza de há vinte anos atrás. Já não terei uma beleza sem rugas e sem cabelos brancos. Terei marcas no corpo. As tais marcas. As feridas. As que já não doem, mas fazem parte de nós. Da história de que somos feitos. Daquela que vou partilhar contigo e da qual quero que faças parte. Porque também eu sou feita de certezas, agora. A certeza de que, por muitas marcas que os corpos tragam, há almas que continuam intocáveis.

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