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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

05
Fev17

Era para ter sido só um olhar

By, JUX

Ousadia. Talvez seja esta a palavra mais adequada. Ousadia em escrever para alguém que (ainda) não conheço. E, pensando bem, não sei se, algum dia, irei conhecer. Mas é para ti que, hoje, escrevo. Sim, para ti. Para ti que (ainda) não me conheces. Ousado? Talvez. Mas esta parece-me ser a altura certa para o fazer. Enquanto somos apenas duas pessoas estranhas. Enquanto não te conheço o rosto nem o cheiro. Enquanto não desejo o toque das tuas mãos no meu corpo. Enquanto o timbre da tua voz não for a melodia mais bela que alguma vez pudesse ter sido inventada. Escrevo-te, agora, enquanto (ainda) não estou encantada com o teu olhar – que cor terão os teus olhos? Começa quase sempre com um olhar. Um olhar que era suposto ser só um olhar – como tantos olhares que se cruzam e não se prendem. Como tantos olhares que são apenas olhares. Quase sempre começa com um olhar, sabias? Um olhar que nos despe. Que nos lê sem serem precisas palavras. É por isso que te quero escrever agora. Enquanto o teu olhar não me declamar palavras que vão ser, para mim, poesia pura – sempre me encantei com poesia, sabias? Porque é isso que vai acontecer. Vai haver um olhar que não vai ser só um olhar. Vai haver um olhar que me vai condenar a ti. E eu vou andar dois ou três dias a tentar perceber o que se está a passar comigo. As larvas vão sofrer a sua metamorfose e vão, finalmente, tornar-se em lindas borboletas. E vão fazer-se sentir no meu estômago. E eu vou senti-las. Vou querer senti-las. Vou deitar-me, à noite, e vou dar comigo a pensar naquele olhar que deveria ter sido só um olhar — porque é à noite que a vida nos dá a calma necessária para pensar na vida, sabias? E vou pensar em nós. Mesmo não havendo (ainda) um nós. E vou sorrir. Primeiro, com um sorriso envergonhado. Depois, bem, depois com um sorriso destemido, rasgado, encantado. Porque é isso que vai acontecer, sabias? Vou-me encantar por ti. Por isso, esta é a altura certa para te escrever. Sim, a ti que (ainda) não me conheces. Quero escrever-te enquanto não temos juízos formados. Enquanto não temos pré- conceitos enraizados. Enquanto somos assim. Tal e qual como somos agora. Dois estranhos. Vou esbarrar-me contigo num dia qualquer em que andarei distraída. Distraída com a vida. Distraída a viver. Vais-te esbarrar comigo numa altura em que estarei completa. Liberta. Presa à minha própria liberdade. Uma liberdade que me faz estar grata por aquilo que possuo. E não me refiro a coisas. Não. Refiro-me a este sentir. Este sentir de que sou feita. Este sentir que me corre nas veias e que me alimenta a alma. Esta alma que ainda acredita que o amor é o expoente máximo do que é, realmente, viver. Sim, a alma ainda acredita. Ainda acredita o que, tantas vezes, o corpo já desacreditou. E é por isso que te escrevo. Para te dizer que se, um dia, o teu olhar não for apenas um olhar; se, um dia, as larvas deixarem de ser larvas e se transformarem em lindas borboletas; se elas passarem a habitar o teu estômago da mesma forma que habitarem o meu; se, um dia, isso acontecer, de ti vou querer o teu melhor. Ousado? Talvez. Mas é assim que deve ser o amor. Ousado. Testado. Saboreado. E é assim que eu vou querer que seja o nosso amor — já te disse que o amor nasce, quase sempre, de um olhar que era para ter sido só um olhar? Quero o melhor de ti porque eu vou dar-te, todos os dias, o melhor de mim. Se, um dia, o teu olhar não for apenas um olhar, então é porque é amor. E se é amor quero vivê-lo. Quero vivê-lo, todos os dias, com o melhor de nós. Quero viver um nós. Dentro do espaço que reservarmos para conjugarmos no plural. Onde caibam todos os sonhos que ainda não foram vividos. Onde habitem todas as histórias que serão só nossas. Um espaço onde exista um nós para viver. Porque, lá, nesse espaço feito com as nossas medidas, bordado com o contorno dos nossos corpos e com o sabor do nosso beijo, lá, terás o melhor de mim. E, lá, quero o melhor de ti. Quero sentir o beijo que (ainda) não deste a ninguém. Quero que o teu melhor toque tenha estado guardado para mim. Quero que descubras, na pele, o arrepio que ainda não conhecias e que o teu corpo se vista do meu toque, do meu querer e do meu amar. Percebes, agora, porque quero o melhor de ti? Porque terás o melhor de mim. Não serei perfeita. Não. Hão de existir dias em que vou errar. Hão de existir birras – sim, ainda é possível fazer birras com esta idade. Hão de existir dias em que vou duvidar do teu amor – mas nunca duvidarei do meu. Hão de existir dias em que te irás sentir posto à prova. Irei errar, mas também irei aprender. Irei chorar, mas o teu sorriso secar-me-á as lágrimas. Irei ter dúvidas, mas o teu amor far-me-á ter certezas. Porque, se for amor – meu amor -, ai, se for amor, então hão de existir mais dias onde o certo irá ser maior do que o errado. Onde os sorrisos irão ser mais que as lágrimas e onde as dúvidas irão ser trocadas por certezas. E é por isso te escrevo, agora, que (ainda) não me conheces. Agora, que somos dois estranhos. Porque, no dia em que o teu olhar não for apenas um olhar, no dia em que o teu olhar se prender no meu olhar, quando, à noite, o teu pensamento fugir para mim – mesmo que ainda não percebas o que se está a passar -, vais descobrir que houve alguém que esperou, exatamente, os mesmos dias que tu para te conhecer. E, se for amor – meu amor-, ai, se for amor, então eu vou querer vivê-lo. E pensar que era para ter sido só um olhar…

quero o melhor de ti05.02.2017.jpg

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