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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

04
Jun17

Os homens e a síndrome de D. Sebastião.

By, JUX

Ontem, falava com umas amigas e, entre as coisas quotidianas que merecem o devido destaque numa conversa entre mulheres «Estou-tão-gorda-não-estás-nada», acabámos, inevitavelmente, a falar mais uma vez dessa espécie que, ao fim deste tempo todo, ainda nos deixam sem algumas – tantas vezes, muitas – respostas. Os homens. Sim. Tal como vocês, há muito, já suspeitam, nós – as mulheres -, ou pelo menos algumas de nós, falamos de vós. Falamos na mesma proporção em que sabemos que vocês também falam de nós. É-nos intrínseco. A todos. Aos homens e às mulheres. Partilhamos com os nossos pares a sensação de estarmos, arrebatadamente, apaixonadas e partilhamos também, com todo o nosso fervor, o fel que nos corre nas veias quando deixamos de o estar – ou quando ainda estamos, mas queríamos muito já não estar. Ontem não foi diferente. Após um agradável jantar – que nos faz acordar de uma espécie de letargia de uma semana de trabalho – demos, mais uma vez, cumprimento à tentativa de tentar perceber como funciona a mente humana. Sim, claro que as mulheres falam de roupa e de maquilhagem, mas desengane-se quem pensa que são esses os temas predominantes da noite. Não são. Falamos de nós; falamos de vós e falamos, essencialmente, dessa forma tão diferente de sentir entre nós e vós ou, pelo menos, dessa forma tão díspar de o demonstrar. E, ontem, à semelhança do que já tinha acontecido noutras conversas de outros jantares, acabámos por concluir que há homens – mais do que aqueles que gostaríamos – que sofrem, gravemente, da síndrome de D. Sebastião. Confusos? Eu passo a explicar: Diz a lenda que El Rei D. Sebastião desapareceu na batalha de Alcácer- Quibir sem deixar rasto. Diz também a lenda que o Rei iria voltar a aparecer a qualquer altura, num dia de nevoeiro. Até hoje ainda não voltou. Mas eu desconfio que existem, por aí, algumas almas perdidas que ainda acreditam, afincadamente, no seu regresso – tal e qual como acontece com algumas de nós, quando nos confrontamos com homens que desaparecem das nossas vidas sem deixar rasto. Ficamos, ali, a olhar para os dias de nevoeiro, na esperança que eles voltem a aparecer e, com um pouco de sorte, montados no mítico cavalo branco. Só que não. Quem nunca? Quem nunca teve um relacionamento, um affair, um encantamento, uma paixão, uma paixoneta ou mesmo uma amizade colorida em que do nada; sem nada fazer prever, esse relacionamento, esse affair, esse encantamento, essa paixão, essa paixoneta ou mesmo essa amizade colorida, deixa de existir, abruptamente, porque a pessoa também já não existe. Não porque tenha morrido – achamos nós –, mas porque, simplesmente desapareceu. Eclipsou-se. Evaporou-se. Fez-se invisível num acto, desesperado, de magia. Quem nunca? Quando a aproximação com o sexo oposto não corre bem – e, agora, não importa, aqui, apontar os motivos, culpas ou responsabilidades – o risco da coisa não vingar é grande. Quando as coisas começam a esfriar; quando começamos a deixar as borboletas do estômago fugirem e quando as pernas deixam de ficar bambas, de uma forma mais ou menos civilizada, cada um vai lamber as feridas para outro lado. Acabou. Existe um ponto final na nossa história. Mas, e quando o ponto final é substituído por reticencias? E quanto está tudo, supostamente, bem? E quando não há quaisquer indícios de que, em breve, nos vão largar uma bomba nas mãos? E quando, ontem, nos despedimos com a habitual mensagem de «Boa-noite, dorme bem.» e, hoje, a mensagem de «Bom dia, dormiste bem?» já não chega? O que fazemos com isso? – E esqueçam a solução tentadora de mandar-o-telefone-contra-a-primeira-parede-que-vos-aparece-pela-frente, porque não é isso que vai fazer com que eles voltem a aparecer e, além de uma dor de corno ainda ficamos com um telefone a menos e uma parede toda escavacada. As mulheres, de uma forma geral, são dotadas de um sentido de perspicácia apurado – acho que é, aqui, que entra o sexto sentido – e depressa percebem o que a [ausência de] mensagem quer dizer. Conseguimos, por norma, ler os sinais – ou a ausência deles. No entanto, ainda existem situações, circunstâncias e, principalmente, atitudes – ou a ausência delas – que continuamos a não perceber. Por muito esforço que façamos – e acreditem que passamos dias e noites a queimar pestana com isto – [ainda] não conseguimos perceber essa vossa facilidade e destreza em se fazerem desaparecer sem usarem os mínimos para os quais todos os seres humanos deveriam estar instruídos – a boa educação. Sim, meus caros, nós conseguimos perceber com alguma facilidade quando vocês se põem ao fresco ou quando perderam «a pica» - infelizmente, percebemo-lo é da forma mais parva. O que [ainda] não conseguimos perceber é porque é que o fazem dessa forma. Ou melhor, com essa ausência de forma. Sem um «Adeus, até à próxima» ou mesmo um «Adeus, até nunca mais!». Há mínimos, caramba! Até mesmo para as coisas que correm mal. Até mesmo para o péssimo há mínimos. E, parece-me que, aqui, os mínimos deviam ser sempre a boa educação. Só que não. E lá ficamos nós em luta connosco a tentar perceber se a culpa foi nossa ou se não tivemos sequer tempo para ter culpa. E eis que, surpreendentemente, a vida continua. Continua sempre. Arranjamos sempre forma de a fazer continuar. Com mais ou menos mazelas, voltamo-nos a erguer e vestimo-nos, convenientemente, para a próxima batalha – e, desta vez, juramos que vamos mais protegidos. Para aleijar menos – dizemos. E quando temos a certeza que aquela pessoa que, em tempos, desapareceu, já é um peão fora da jogada; uma carta fora do baralho; uma pedra fora do sapato; eis que a criatura resolve aparece para fazer xeque-mate. Se o desaparecimento já é mau, o [re]aparecimento é inqualificável. Não há palavras que consigam exprimir o que é que uma mulher sente dentro de si relativamente a esses D. Sebastiões da nossa vida. O que vos dá o direito de acharem que podem – ao fim de meses, anos e muita vida depois – aparecer da mesma forma que desapareceram? O que vos dá o direito de pensar que podem retomar uma coisa que não tiveram sequer coragem de terminar? Deixem-me esclarecer-vos uma coisa. De uma vez por todas. Aquela mulher que vocês deixaram pendurada a determinada altura da vossa vida ficou, precisamente, lá. No passado. Desapareceu com vocês. Já não existe. Evaporou-se. Também se teve de fazer desaparecer num acto, desesperado, de magia. Transformou as reticencias num ponto final. Por isso, meus caros, sempre que tiverem a tentação de desaparecerem ao estilo de D. Sebastião na esperança de, um dia, voltarem com a convicção de ganhar a batalha, lembrem-se de que «dos mortos não reza a história». Só conta quem está vivo e vocês morreram no dia em que tentaram matar a [nossa] história.

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