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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

29
Dez16

Sabes o que me faz gostar de ti?

By, JUX

Sabes o que me faz gostar de ti? Sabes o que me faz gostar de ti? Deixares-me gostar de mim. Assim, tal e qual como eu sou. Por vezes sem jeito, outras vezes, com tanto amor, que me transborda do peito. Assim, tal como e tal como eu sei ser. De gargalhada estridente e de sorriso presente. Sabes o que me faz, de facto, gostar de ti? Deixares que existia um «eu», neste espaço que se conjuga no plural. Deixares que isso exista, sem que isso nos possa fazer mal. Sabes porque gosto eu de gostar de ti? Porque me acrescentas e porque, com isso, não me subtraí. Sabes, afinal, o que importa no gostar? É querer conjugar um «nós», e deixar o «eu» ficar. Boa noite.

sabes o que me faz29.12.2016.jpg

26
Dez16

Queres ser minha amiga?

By, JUX

É quase sempre assim que começa. Mal aprendemos a juntar as letras do abecedário, investimos nos tão preciosos bilhetinhos dos tempos da escola primária. Estas são talvez as primeiras mensagens que ousamos escrever, fora do plano nacional de educação. — Queres ser minha amiga? Sim? Não ou talvez? São estas as opções que nos são dadas. O «Queres namorar comigo?» também fez parte da lista de recados em bilhetinhos. Mas vamos deixar esses recados para mais tarde. Hoje, vou começar pelo princípio. Até porque, antes das borboletas na barriga, vem a amizade. Antes de sabermos o que é amar, temos de saber o que é gostar. Antes de sabermos o que é receber, temos de aprender a dar. Antes de sabermos a que sabe um beijo nos lábios, temos de saber apreciar um beijo no rosto. E, por isso mesmo, hoje seguiremos a ordem natural das coisas. Fiquemos, portanto, pelo primeiro dos bilhetinhos. São aqueles papelinhos amarrotados — que muitas vezes voaram para baixo das carteiras da escola, vindos não sabemos bem de onde — que nos indicam o caminho que queremos trilhar. É ali que fazemos as primeiras escolhas. Mesmo que, nessa idade, ainda não tenhamos a real perceção do peso que as nossas escolhas possam vir a ter. A verdade é que é nessa altura que começamos a definir quem somos, quem queremos ser e quem queremos que nos acompanhe e que faça parte de nós. Existem tantas definições de amizade quantas as pessoas que tomamos por amigas. Há os amigos verdadeiros, os amigos dos copos, os amigos irmãos, os amigos conhecidos e os só amigos. E de certeza que me esqueci de uma série de categorias que alguns de nós têm no seu catálogo. Para quê esta necessidade de categorizarmos os amigos? Se é amigo, é amigo. Não deveriam existir subcategorias. No entanto, desconfio que o caso é muito mais complexo do que possa parecer. E, a bem da verdade, não me cabe a mim estar a por em causa conceitos que já eram usados pelos nossos avós. — Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és! Já se ouve isto há muito, não é? E, como não é justo falar das vossas amizades, vou falar das minhas. Às minhas amizades dirijo estas palavras. Lembro-me de cada um de vocês! Mesmo que não vos fale há anos, por vos ter perdido o rasto ou por nos termos afastado, devido às circunstâncias da vida. Lembro-me de quase todas as histórias que vivemos — e só não arrisco dizer que me lembro de todas, porque a idade já não perdoa. Lembro-me de quando fugi — à revelia da minha mãe — para o parque infantil, e caí numa poça de água, molhando o vestido de domingo, e tu, amiga, me emprestaste a tua casa para secar o vestido, tendo evitando um sermão daqueles. Lembro-me de dividir a coragem contigo, amigo, e fumar o primeiro cigarro, seguindo-se dois minutos de tosse. De ti, amiga, lembro-me de ficares comigo até às 6 da manhã, dentro do carro, a ouvir as minhas desilusões amorosas. E de ti, amigo? De ti, lembro-me de não me teres deixado conduzir quando já não estava em condições para o fazer. Hoje continuo viva para contar esta história. E contigo? Contigo, amiga, soube-me maravilhosamente bem partilhar aquela garrafa de vinho com a qual brindámos à amizade. São tantas as histórias, as vivências, as experiências, as gargalhadas e os conselhos partilhados que coleciono no meu álbum de amizades, que estar a mencionar nomes ou categorias seria extremamente injusto para cada um de vós. Assim, limito-me a agradecer a todos. Todos vós, sem exceção, fazem parte de mim. Do que eu sou. Fazem parte das minhas escolhas. E, se assim é, é porque vos quis levar comigo. Para sempre. Mesmo que já não estejamos juntos fisicamente. Um dia, foram importantes numa escolha qualquer da minha vida. Mesmo que tenha sido apenas na partilha de uma boa gargalhada. E foi por isso que, um dia, te chamei de amigo. Porque, tal como nos bilhetinhos daquele tempo, contigo fiz uma cruz no quadradinho que dizia «sim».

26
Dez16

Mulheres independentes

By, JUX

Todas nós, mulheres, gostamos de ser consideradas mulheres independentes aos olhos dos demais. Na maior parte das vezes, fazemos questão de lembrar – mais a nós do que aos outros – que é assim que pretendemos continuar. Independentes. Fortes. Donas do nosso nariz. Com pelo na venta. E é de cabeça erguida que comandamos a nossa vida. Muitas vezes, comandamo-la contra o que a sociedade estereotipou para nós. Mulheres independentes gostam pouco de seguir o «socialmente estipulado». É à conta de termos coragem de rasgar essas regras que temos carreiras, que continuamos a lutar pelos nossos sonhos e que, tantas vezes, fazemos o papel de homem e mulher. Já nenhuma mulher independente ousa dizer que se atrapalha, quando o carro tem de ir para a oficina ou quando precisa de arranjar o autoclismo lá de casa. Uma mulher independente quer-se, por natureza, forte. É uma mulher que não quebra. Que enfrenta, estoicamente, os obstáculos que o criador colocou, à partida, ao sexo masculino. Mas, ao contrário do que se possa pensar, isto de querermos ser mulheres independentes, muitas vezes, vira-se contra nós. Claro que nunca o vamos admitir — até porque mulher independente não quebra. Mulher independente resolve. Mulher independente não se apega. Mulher independente quase não sente. Ou, pelo menos, é isso que os homens, de uma forma generalizada, pensam. Uma mulher independente, por norma, procura para si pares iguais. Com o mesmo nível de maturidade, independência e resiliência para com a vida. O que nos atrai? O que vamos dizendo, à boca cheia, nas primeiras abordagens: — Aprecio uma mulher independente. E, nós como independentes que achamos que somos, retorquimos: — Perfeito. Essa sou eu. Tretas. Na vida real, não é nada disso que se passa. Nós, mulheres independentes, queremos, na maioria das vezes, descer dos saltos altos quando chegamos a casa e vocês, homens, desejam que as vossas mulheres nunca os cheguem, realmente, a calçar. Têm receio. De sermos tão independentes que não queiramos sequer ter-vos para nós. Têm medo que não caibam na nossa vida. Que sejam os únicos a sentir, a amar, a rir, a chorar. Com isto não estou a dizer que os homens não apreciem, verdadeiramente, uma mulher independente. Acho que tentam fazê-lo, genuinamente. Juro que acho. No entanto, na maioria das vezes, não conseguem. Uma mulher independente assusta um homem. Incute-lhes, de tal maneira, uma margem de insegurança que acabam por condenar toda essa independência que tanto elogiam. Os homens – com as merecidas exceções que têm de ser ressalvadas – não sabem lidar com o facto de uma mulher ter o poder de escolha. De saber o que quer para si. De escolher, apenas, o que lhes faz sentido. Para as mulheres, ir passar um fim-de-semana na companhia de amigas, ir a um jantar a meio da semana, pegar no carro para ir a uma festa de aniversário, são coisas que lhes fazem todo o sentido. Contudo, para muitos homens continuarão a ser coisas que lhes fazem perder os sentidos. Assusta-os o facto das mulheres independentes também já poderem ir comprar tabaco e nunca mais voltarem. Mas, aqui, que ninguém nos ouve, vou abrir uma nesga da caixa de pandora. As mulheres ditas independentes também quebram, não resolvem tudo e querem muito apegar-se. Precisam de descer dos sapatos de salto alto e calçar as pantufas fofinhas que estão guardadas a um canto. Apreciam tirar a maquilhagem e ficarem sentadas no sofá sem lhes apetecer fazer o jantar. Gostam de ter um colo para ver um filme no domingo à tarde e precisam que lhes peçam que fiquem mais um bocadinho. As mulheres, ditas independentes, gostam que vocês – homens que apreciam mulheres independentes – nos digam que levam o carro à oficina e que é hoje que vão arranjar o autoclismo lá de casa. Que nos peçam para ficar. Não na vossa cama. Na vossa vida. Que não tenham medo que não voltemos, só porque fomos passar um fim-de-semana fora com as amigas. Não nos vejam como adversárias. O que mais desejamos é ser vossas aliadas. Porque nós – aquelas mulheres independentes que vocês dizem apreciar – mais do que independentes, continuamos a ser mulheres e, por vezes, só estamos à espera que vocês – homens que apreciam mulheres independentes – nos descalcem estes sapatos, tantas vezes apertados, e nos digam que gostam de nós sem maquilhagem.

26
Dez16

Amores com hora marcada

By, JUX

Ontem, fui jantar com um amigo. Uma das muitas vantagens em ter amigos homens – sem que eles tenham intenção em te levar para a cama – é que, com eles, podes desconstruir um bocadinho a mente humana no masculino. Há amigos com os quais é possível falar de coisas de mulheres, acabando por (re)criar uma sequela do sexo e a cidade, mas em versão homem-mulher. Foi, precisamente, isso que fizemos ontem. Poder jantar com alguém do sexo oposto, sem estares, constantemente, a fazer uma leitura de quais serão as reais intenções da pessoa que te acompanha, tem outro nível. Durante o jantar e entre um bom copo de vinho, quisemos saber um do outro. É isso que os amigos fazem. Querem saber como o outro está. E, mais do que saber como corre a vida, gostamos de perceber como anda o coração. Não que tenhamos quaisquer intenções de ocupá-lo, muito pelo contrário, mas no fundo é isto que move o ser humano. A busca pelo amor perfeito. E, se não puder ser perfeito, que seja amor, pelo menos. Todos temos medidas diferentes de amar ou talvez todos amemos de maneiras diferentes, mas, neste campo, todos procuramos o mesmo. Neste campo, não há sexo forte. Há apenas seres humanos que tentam encontrar um corpo que lhes assuma a alma. Porque, no fim, o que todos queremos é ter alguém para partilhar uma manta quente, num domingo frio de chuva. Mas ou o amor anda doente, ou as pessoas andam dementes. Ontem, dizia-me o meu amigo que andava cansado de coisas efémeras, rápidas, sem conteúdo. Dizia-me que, de uma forma geral, as mulheres perderam o amor-próprio. E, por muito que eu tentasse refutar os seus argumentos, a verdade é que tudo o que eu lhe ia dizendo ia caindo por terra, ao longo da noite. A noite estava por nossa conta. Não tínhamos, em nós, o peso da preocupação em saber qual o passo a dar a seguir; se estávamos a conquistar ou a ser conquistados; se íamos acabar numa cama ou se ficava para a próxima. Não. Éramos só dois amigos que, apenas por um mero acaso, tinham nascido homem e mulher. E de resto? De resto, éramos duas pessoas com os mesmos receios, as mesmas dúvidas e com as inseguranças de cada um. Fomos semeando as palavras pelas ruas de Lisboa, num Sábado à noite. E é numa rua cheia de gente, perdidos num passeio qualquer, num Sábado qualquer, que podemos observar a cidade. Uma cidade feita de pessoas. Pessoas que sabem o que querem, como querem e a que horas querem. Pessoas que fazem momentos. Momentos cheios de coisa nenhuma. Marcamos amor para as dez. Apaixonamo-nos às onze. Esquecemos tudo à meia-noite. Já não sabemos a que sabe um bom dia no dia a seguir. A cidade estava cheia. Cheia de pessoas, que estavam cheias delas. E elas vazias de amor. Vazias daquele amor que nos faz esquecer onde estamos, que nos faz parar no tempo, que nos faz sorrir com os olhos e que nos aquece a alma. Nada disto existe na minha cidade, num sábado à noite. Existem corpos. Corpos que seduzem corpos. Corpos que só querem corpos. — Estás a ver aquela miúda, ali? Tenho-a no meu Instagram. E é assim que as coisas funcionam. Todos sabem as regras. Hoje, chamo-te amor. Amanhã, serás um estupor. Hoje, procuro-te, desesperadamente, no Facebook. Amanhã, bloqueio-te na minha vida. São likes a mais para amores a menos. Andamos todos à procura de qualquer coisa parecida ao amor, mas, se sabe a amor, fugimos desesperadamente. Chamem-lhe tudo, mas não lhe chamem amor. O amor não tem hora marcada. Não se conquista com uma boa foto no Instagram. O amor, que eriça a pele, não termina com o nascer do sol e não se limpa com um bom desmaquilhante. O amor não se reconhece pelo corpo. O amor reconhece-se pela alma. Mais uma noite que acaba na minha cidade. Mais uma noite de amores com hora marcada. De corpos que procuram corpos. De corpos que apenas desejam corpos. E, em horas onde o preconceito não tem lugar, o amor-próprio é barrado e a alma não está na guest list, resta-nos fingir amor. E nós? Nós, cansados das ruas da cidade, fizemos o caminho de volta. De volta a casa. De volta a nós. Com a certeza de que somos muito mais do que uma noite de sábado, na nossa cidade. Porque, no fim, o que continua a fazer sentido é saber que, quando te despedes de alguém, seja um amigo, um amor, ou uma alma gémea, vais ouvir genuinamente: — Diz-me alguma coisa, quando chegares a casa!

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26
Dez16

Já quis...

By, JUX

Já quis... Já quis que o amor fosse louco. Já quis tanto que, de tanto querer, o amor me sabia sempre a pouco. Já quis que o amor fosse insano. Já o achei sagrado e de tão sagrado que era, depressa se tornou profano. Já quis amor que não me cabia no peito. Era maior que eu, e isso não condiz com respeito. Já morei em amores de instantes. Já aluguei amores ausentes, já tive amores distantes. Já deitei amor fora, por não saber o que lhe fazer. É que o amor não consumido; azeda, não se deve manter. Já transformei amor em raiva, já perdoei um amor não correspondido, já achei que para ser amor só valia se fosse um amor sofrido. Já dei mais do que devia dar, já me senti a mais amada, já achei que tinha tudo, e já vi tudo transformar-se em nada. Já morei sozinha no amor, por achar que amar bastava. Mas amar os outros esquecendo-te de ti, é dar amor e ficar com nada. Já quis que fosse tudo. Tantas vezes pedi que desse flor… Hoje, tranquilamente, vos digo: - Para mim, basta-me que seja Amor.

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26
Dez16

Deixar-te ir

By, JUX

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E, quando desliguei o telefone, deixei-te ir! Soube-o naquele exato momento. Terminar aquela chamada era sinónimo de terminar uma história que nunca chegou a ser. Era preciso deixar-te ir. Tu ficaste aliviado por me teres contado e eu fiquei aliviada por não ter chorado. — Foste das poucas pessoas a quem contei! — Disseste, com voz radiante. Chegara a hora de te deixar ir. Da mesma forma que fizemos durante todos estes anos. Deixámos o outro ir. Só assim tivemos a certeza de que íamos ficando. E resultou. Fomos ficando. Sempre. Entre nós, existe uma espécie de código secreto — daqueles que nunca foram escritos em lado nenhum, para não se decifrar — através do qual nos pautamos e sabemos as cláusulas de cor. Nunca o violámos. Porquê? Porque não o selámos com palavras, nem com rituais sagrados. Selámo-lo com a alma. E com o olhar. E isso não é passível de ser corrompido. Amámo-nos à distância. Mas nunca fomos distantes. Amámo-nos em cada conquista que alcançavas, na vida, e que fazias questão de partilhar comigo — sempre, com esse entusiasmo que te é tão característico. Amámo-nos em cada mensagem trocada, mesmo quando o conteúdo era sobre o melhor clube do mundo — o teu — e eu acabava sempre por acreditar que, de facto, era o melhor, mesmo sendo eu de um clube adversário. Amámo-nos em cada beijo, descontextualizado, que íamos enviando, um ao outro. Como se explica às pessoas que fiquei verdadeiramente feliz quando soube que tinhas encontrado uma miúda que te parecia ter potencial para ser a «candidata ao trono» — expressão que, em tom de brincadeira, utilizavas? Com se explica às pessoas que te senti feliz, quando soubeste que eu tinha encontrado alguém? Isto não se explica, pois não? Não. Isto sente-se. E desconfio que só se sente uma única vez. Já encontrámos amores arrebatadores — daqueles que nos tiram o fôlego em cada beijo. Já experimentámos paixões que nos levam à loucura e nos roubam o discernimento. Já tivemos a certeza que «desta vez é que é». Desta vez, acertámos na nossa cara-metade. Mas sentir assim, desta forma, como nós sentimos; desta maneira estranha de querer, sem exigir; esta certeza de sermos, eternamente, um do outro, sem ficarmos juntos; creio que isto só acontece uma vez na vida. Sabes? Há dias comentava, entre amigos, que deixar ir acaba por ser das maiores provas de amor que podemos dar e/ou ter. E deixamos ir porque, acima de tudo, queremos que a pessoa seja feliz, independentemente de ser, ou não, ao nosso lado. Deixamos ir para que a pessoa possa ser. Ser-se a si própria, na sua plenitude. Ser o que quiser, quem quiser e nas premissas que lhe apetecer. Deixar ir é um exercício que implica, necessariamente, uma elasticidade de pensamento. E, para que isso aconteça, é requerido algum treino. Deixamos ir, à custa de muitas lágrimas, de muitas interrogações e de muitos porquês. Só assim aprendemos como se conjuga o tempo certo do deixar ir. E foi à conta de te deixar ir que sempre ficaste! Ficaste para sempre. Ficaste, respeitando os meus valores, os meus gostos, o meu espaço e até os meus relacionamentos. Em jeito de confissão, posso, agora, dizer-te que todas as histórias de amor que viveste foram choradas por mim. Chorei-as, por achar que te tinha perdido para sempre. Afinal de contas: «Quem não se sente não é filho de boa gente!» – Já diz o provérbio. Mas depressa percebi que não valia a pena chorar. Porque não era possível perder-te. Apenas não te teria, fisicamente. E é quando tens essa certeza que percebes que o que sentes é muito mais que um amor físico. É um amor de alma. E os amores de alma não carecem do corpo para se alimentarem. Por isso, deixo-te ir! Deixo-te ir, mais uma vez. Deixo-te ir, como o fizemos todos estes anos. Deixo-te ir, naquela chamada de sabor agridoce. — Foste das poucas pessoas a quem contei! — Disseste, orgulhoso! — Parabéns, meu amor! Fico tão feliz, por ti. — Disse-o, com a voz embargada. E, desligando a chamada, soube que, mais uma vez, te tinha de deixar ir. Como já fizemos, tantas vezes, um com o outro. Foi, por te deixar ir, que sempre ficaste. E, assim, desliguei com a certeza de que te irias desligar de mim. — Hoje vais ao NOS Alive? — Gritou o telefone, ao mesmo tempo que li o teu nome, no remetente da mensagem. E, naquele exato momento, soube que foi por te ter deixado ir… que iremos ficar juntos para sempre!

26
Dez16

Hoje, apetecia-me tanto amar

By, JUX

Hoje, apetecia-me tanto amar. Hoje, apetecia-me tanto amar. Amar. Só amar. Expurgar de mim isto que guardo dentro da pele. Não sei bem ainda para quem. Mas guardo. Apetecia-me amar. Só amar. Tirar do peito esta ansiedade que não sai e que, ferozmente, se transforma em saudade. Arrancar este desejo que se colou a mim e que me faz estremecer de tanto querer. Hoje, apetecia-me amar. Sem rostos. Sem nomes. Sem credos. Sem nexo. Só amar. Hoje, queria tirar do corpo este desvario, este devaneio, este mar revolto em que vagueio. Hoje, apetecia-me ser louca num corpo que me despisse a razão, que me fizesse gritar e gritar bem alto de loucura, de paixão. Hoje, queria arder em desejo. Desejo insano, louco, profano. Hoje, queria marcar-te a pele. Possuir-te a alma. Agarrar-te o peito. Não ter calma. Hoje, apetecia-me amar. Amar. Só amar. Sem explicação. Sem porque sim, nem porque não. Amar. Só amar. Sinto-me presa. Sinto-me enganada. Sinto-me filha desta sanidade que me deixa acorrentada. Hoje, não quero ser sã. Quero que permaneça em mim esta loucura sem fim. Não quero fazer sentido e ficar-me por um beijo. Quero procurar-te a pele, entrar em ti, sufocar-me de desejo. Hoje, não quero o que é certo ou o que é errado. O que é certo não me faz feliz e ser feliz ficou no passado. Já não aguento muito mais esta espera. Não sei bem por quem. Talvez por ninguém. Se virá, se amará, se vem por mal, se vem por bem. Hoje, apetecia-me amar. Amar. Só Amar. Que não me cabe mais no corpo este alguém que não tem rosto. Não tenho mais lágrimas para chorar, nem para viver nenhum desgosto. Estou farta de esconder da alma e fingir que não me sinto, se o que mais habita em mim é tudo aquilo que minto. Sim, hoje apetecia-me amar. Apetecia-me tanto amar. Tanto amar e amar tanto que me devolvesse, de novo, o encanto. Que me atirasse para o chão, com força, com poder, com tesão. Que me desconcertasse a vontade. Que me apagasse a saudade. Porque, se eu não puder arrancar esta ansiedade que tenho no peito, se eu não for feita do que tu és feito, se este meu beijo não tiver a medida do teu desejo, se esta minha saudade não for para acalmar a tua vontade, se não te puder ver, tocar, sentir, abraçar; se não puder despir as roupas, a alma, a vontade, o desejo, o beijo, a saudade; se não puder encontrar-me na tua pele e, por lá, demorar-me; então, chama-me louca, deixa-me cair, devolve-me a roupa. Que eu hoje apetecia-me amar. Amar. Só amar. Amar sem rostos, sem nomes, sem credos, sem nexo. Amar-te a ti, a ti ou a ti. Amar sem condição. Começar na minha cama e terminar no teu chão. E, se eu hoje não puder só amar, ir e ficar, então levem-me para longe, porque eu não quero cá voltar. E, se eu não puder ser feita de sentir, também não serei feita de fingir. Levem-me. Amarrem-me a alma com correntes, tirem-me daqui e não me devolvam a este lugar. Porque só estou aqui… porque hoje apetecia-me tanto amar.

porque, se eu não puder 27.11.2016.jpg

26
Dez16

Ontem, liguei para a minha infância

By, JUX

Ontem, liguei para a minha infância. Liguei-lhe de um telefone portátil, imaginem! De um telefone do tamanho das minhas mãos. Igual aos que víamos nas novelas brasileiras – mas muito mais moderno. Quando a minha infância atendeu, não quis acreditar que lhe estivesse a ligar de um telefone assim. Não achou que fosse possível. Achou que devia estar a ligar de um futuro mais longínquo. Desconfiou até, por momentos, que eu lhe pudesse estar a ligar de outro planeta. — Não. Estou a ligar-te apenas 30 anos mais tarde. Quis saber tudo. De um impulso só. Quis saber se era como imaginávamos quando éramos pequenas, quando a única preocupação era saber que personagem íamos encarnar, naquele instante. Bastava pensar e fazíamos acontecer. Bastava sonhar e começávamos, logo, a flutuar. Quantos países visitei, sentada nas escadas do prédio, imaginando estar num avião com asas grandes, que me levava até lá? Quantos vestidos de seda selvagem usei, com toalhas de mesa que, orgulhosamente, ostentei? Quantos jantares dei com sopas feitas de terra? Bastava querer e a força do sonho fazia acontecer. Ficámos à conversa. Daquelas conversas que se têm com os grandes amigos, durante horas sem fim. Daquelas conversas que nos levam até às memórias. Até às boas memórias. Entusiasmada, a minha infância quis confirmar se as coisas, agora, eram melhores. Quando somos pequenos, imaginamos que, em adultos, vai ser tudo muito melhor e que seremos, no mínimo, donos de metade do mundo. Porque, quando somos pequenos, basta sonhar e começamos, logo, a flutuar. Foi nessa altura que parei para pensar. Parei no tempo. Parei com o tempo. Não sabia, ao certo, o que lhe responder. — São melhores, creio. – Acabei por responder, não totalmente convencida. — Não me pareces muito convicta. – Intrigou-se, ela. E não estava. Para poder ser honesta comigo – e, essencialmente com ela, não tendo o direito de lhe roubar todos aqueles sonhos – pedi-lhe para me recordar como foi a nossa infância. Foram tantas as coisas que aconteceram desde então, que era preciso rever a matéria dada, tal e qual como fazíamos nas vésperas dos testes. E, devagarinho, ela começou a dissecar pequenos fragmentos de história. Da nossa história. Da história de tantos nós. Recordou-me, horrorizada, que a nossa infância foi vestida de roupas de fazenda – horrível, por sinal – que a única função que tinha era picar-nos a pele – de tal maneira, que chegávamos a ficar em chagas, de tanto nos coçarmos. Por sua vez, no verão, não havia roupas de fazenda, mas havia vestidos apertados e cheios de folhos, com sandálias e meias brancas de renda até ao joelho. Fechei os olhos e viajei até ao quarto da minha mãe para visualizar a fotografia, gigante, que ela insiste em manter exposta, comigo, tal e qual assim. Vestido vermelho, sandálias e meias brancas. De renda, claro. De seguida, saí do quarto para a minha infância me levar até à rua. Já lá, recordámos, de sorrisos rasgados na cara, as tais sopas de terra, o jogo do elástico – como era possível conseguirmos saltar, com o elástico pelo pescoço? – e as viagens ao pão quente, às sextas-feiras à noite. Foi tão bom recordar todos os cheiros, as cores e até o picar da fazenda na pele. Voltámos a casa. Sentámo-nos no sofá para recordar que as televisões só tinham dois canais e não tinham comando. Às segundas-feiras, era dia de jogos sem fronteiras e o festival da canção era de visualização obrigatória. Lembrámo-nos das férias de verão, do tostãozinho para o Santo António e de terminarmos a noite a saltar a fogueira. Quando queríamos saber dos nossos amigos, ligávamos para casa dos pais e perguntávamos, educadamente: «É da casa da Maria? Ela está?» Tínhamos cuidado com a conversa, pois todos os segundos entravam na conta, ao fim do mês. Olhámos uma para a outra. Sabíamos que estava na altura de chamar a adolescência. E lá veio ela com a sua rebeldia que tanto gostava de ostentar. Já não trazia aquela permanente que tanto insistiu em fazer, quando tinha 13 anos – da qual se arrependeu, no mesmo segundo em que se viu ao espelho – mas permanecia com a certeza de que já era muito adulta e que concentrava em si todas as verdades do mundo. Quando olhei para ela, sorri. Ainda pensei em lhe dizer o quão errada estava, mas escolhi ficar em silêncio. A adolescência serve para isso mesmo. Para perceber que todas aquelas verdades, irrefutáveis na altura, não passam de ferramentas de aprendizagem, fundamentais para nos tornar mais fortes e conscientes. Deixei a adolescência contar tudo. O que era certo e o que fora tão errado. Tudo fazia parte. Senti-a a acalmar-se, serena e gradualmente, até que, por fim, me perguntou: — Não percebo. Agora já podes ter tudo o que imaginaste, quando eras uma de nós. Já podes viajar, ter vestidos de seda e já podes ter grandes jantares. Porque nos ligaste, desse telefone futurista? Sorrindo, chamei-as até mim. Pedi que nos sentássemos como fazíamos antes, naquelas escadas do prédio, quando viajávamos pelo mundo. — É verdade. Hoje, tenho um carro que me leva onde eu quero estar; tenho uma panela, de verdade, onde faço sopas deliciosas e caio no erro – quase todos os meses – de comprar mais uma peça de roupa – da qual, felizmente, não preciso. Mas, de quando em vez, é preciso vir até aqui. — Porquê? – Perguntaram em uníssono. — Para que nunca nos esqueçamos de que é aquilo com que sonhamos em pequenos que faz de nós grandes!

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