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Só que não

Estamos começados mas não acabados. No fim, no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras. Sou mulher e sou feliz.

20
Jun17

Não lhe dês tudo.

By, JUX

Não lhe dês tudo. Há tempos, li um artigo escrito no masculino em que no meio de todas as palavras que me iam prendendo a atenção, existiram três ou quatro que me prenderam a respiração. Uma das coisas boas que o avançar da idade nos traz é a sabedoria. Não falo da sabedoria dos livros – essa será sempre intemporal. Há quem a aproveite desde sempre e há quem nunca a chegue a aproveitar. Essa sabedoria não tem idade. Falo da sabedoria da vida. Daquela que nos é oferecida pela experiência. Pela experiência que vamos adquirindo com as conquistas, pela experiência que vamos aprendendo com as derrotas, pelo preenchimento que nos chega com um sorriso e pela aprendizagem que fica de uma lágrima vertida. Essa experiência – a da vida –, por vezes, faz-nos achar que já temos o conhecimento necessário ou, no mínimo, o conhecimento básico sobre quase todos os assuntos. Achamos sempre que já experienciámos quase tudo e que isso é o suficiente para nos dar a bagagem necessária para não voltarmos a errar da próxima vez. Ou pelo menos para já sabermos minimizar os danos. Mas depois há sempre qualquer coisa que nos deita tudo isso por terra. Que nos muda as perguntas e que nos baralha as respostas. As relações humanas hão de ser sempre um dos maiores mistérios da humanidade. Desengane-se quem pensa que é sábio em relação a esse tema. Quem pensa que tudo sabe, arrisca-se, seriamente, a viver para sempre na ignorância. Também eu não sou diferente. Também eu acho que já adquiri toda a teoria – porque é que na prática é sempre tudo tão diferente? – para me saber resguardar de todos os males que se possam atravessar no meu caminho. Falo, obviamente, das tais relações humanas. Falo mais precisamente das relações entre homem e mulher. E eis que quando acho que já tenho o mestrado em: «Desta vez é que vou ter um relacionamento perfeito e vou ser feliz para sempre», leio um raio de um artigo escrito por um homem e fico com a certeza de que, se calhar, nem o secundário acabaria com sucesso. Aquele artigo caiu em cima de mim como se tivessem decretado oficialmente a terceira guerra mundial nos meios de comunicação social. Então não é que a meio da leitura – que transmitia um ponto de vista nada convencional para quem está a falar no masculino – pude ler, entre outras, as seguintes palavras: «Nunca, jamais dês tudo de ti ao teu parceiro». Petrifiquei! Juro que o meu coração bombeou duas vezes mais rápido naquele momento; juro que o ouvi pulsar mais depressa e juro que aquelas palavras saíram do texto para virem bater de frente comigo tal e qual uma colisão grave frontal. Como não dês tudo de ti? Como assim? Como é que passamos metade da vida a formatarmo-nos para encontrar alguém que saiba apreciar, verdadeiramente, tudo o que temos guardado dentro de nós para, agora, nos virem dizer que o segredo é não dar tudo? Fiquei em choque. Afinal o «só sei que nada sei» tinha acabado de ter efeito prático. Aos poucos, fui recuperando a respiração e as cores devem-me ter voltado a face. Aos poucos, foi como se este choque frontal tivesse servido para um acordar letárgico em que me encontrava talvez desde sempre. Fui compreendendo as palavras e não as encarei como uma prepotência de alguém que se achava o rei da cocada preta. Não. Li-as como alguém que desmistificava um mito; como alguém que apreciava, verdadeiramente, uma mulher e, acima de tudo, de alguém que a respeita. Então, afinal, o que entendi eu das suas – cruas – palavras? Um homem gosta de admirar uma mulher. Gosta de admirar-lhe os pormenores, os gestos, os trejeitos, os seus mistérios. E, nós, mulheres, o que fazemos? Damos-lhes tudo. Achamos que é o que eles mais querem. Que é o que estão à espera. Aprendemos que essa é talvez a prova cabal de saber amar. Por isso, tantas vezes, esquecemo-nos de nós porque só pensamos no outro. Para o outro. Em função do outro. Mas, ao contrario do que possamos pensar, não é isso que um homem valoriza. Não é isso que faz um homem admirar uma mulher. Não é isso que vai fazer com que um homem fique com uma mulher – agora, que penso nisso, raramente, um homem fica com uma mulher assim (não me estou a referir àquela espécie de homens que fazem do egoísmo a sua maior bandeira. Para esses, só lhes servirão as mulheres que insistem em dar tudo e se contentam em receber nada). Um homem gosta de admirar a sua mulher, de a cortejar, de a sentir sua e, se lhe deres tudo, resta-lhes nada para admirar. Para desejar. Para querer. Um homem gosta de sentir que te conquista, diariamente, gosta de sentir que ganhou o jogo, mas que ainda tem o campeonato para alcançar. Um homem gosta de [te]explorar, devagarinho, dia a dia, gosta de [te] tornar a sua mulher, de [te] fazer sentir a mais bela delas todas. É assim que ele te vai fazer sentir especial, a única, a que o vai fazer ficar. Sempre que caímos no erro de darmos tudo; de querermos dar tudo, - e olhem que eu fartei-me errar - o que vamos receber em troca é apenas uma mão cheia de desinteresse. Porque não resta nada para admirar, para conquistar, para descobrir. Esqueçam essa coisa de «o verdadeiro amor é aquele em que damos sem precisar de receber». Bullshit. Somos humanos, porra! Não somos máquinas. E até as próprias máquinas para nos dar algo, requerem um esforço prévio da nossa parte para obtermos o resultado desejado. Que nos dêmos uns aos outros. Sim. É fundamental para que as relações humanas resultem, mas não nos esvaziemos de nós na esperança de que a outra parte só se contenta quando dermos tudo. A única coisa que vamos conseguir é uma vida cheia de nada.

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14
Jun17

A tortura ou ternura dos 40?

By, JUX

A tortura ou ternura dos 40? Confesso que ainda estou a tentar perceber se isso que se trauteia nas músicas sobre a ternura dos quarenta e sobre os quarenta serem os novos vinte é mesmo verdade ou se não será uma maneira elegante de tapar o sol com a peneira e de nos tentarem – de uma forma menos agressiva – dizer: «Minha menina, agora acabaram-se as desculpas, de menina já não tens nada e, a partir de agora, vais começar a tratar por tu as dores nas articulações e oitenta por cento das pessoas com quem te vais cruzar quando cometeres a ousadia de ires beber um copo vão ter idade para serem teus filhos.» O ser humano – com especial incidência no povo português – tende a desconfiar daquilo que é bom. Critica, desconfia, fica em alerta e, acima de tudo, fica sempre à espera de que lhe seja pedido algo em troca «Ninguém dá nada a ninguém» «Quando a esmola é demais o santo desconfia» – dizemos, em modo de ladainha enquanto aceitamos, a custo, qualquer coisa que nos queiram oferecer. Assim estou eu em relação à chegada dos quarenta anos. Meia desconfiada. Para mim, este é o ano em que muitos dos meus amigos de criação – quando privamos há mais de vinte anos já são considerados amigos de criação, não são? – Chegam à meta dos quarenta. Muita festa vou ter eu, este ano! Que se preparem os sunsets, os brindes e os hinos à vida. E se eu sobreviver a isto tudo, lá para Julho, também chegará a minha vez de entrar pelos quarenta adentro. Mas é quando não estamos em festa; quando as luzes se apagam; quando acalmamos esta euforia do que é celebrar para fora, que começamos a fazer o balanço para dentro. Na melhor das hipóteses, metade da vida já lá vai. Já foi. Puff! Já desapareceu. Resta-nos, portanto, a outra metade. É aí que começamos a pensar – é inevitável não o fazer – sobre o que queremos fazer com a metade que nos resta. É aí que entram as tais canções e as tais ladainhas. Será assim tão bom como dizem? Não era suposto estarmos mais preocupados com as rugas, com os quilos mais, com a falta de energia e com a reforma? Talvez. Mas a verdade é que não é isso que encabeça a lista das tuas preocupações. Primeiro, começas por desconfiar de ti mesma. Estranhas-te. Pensas que poderá estar a passar-se alguma coisa contigo. Depois, quando começas a conversar com as gentes da tua idade, começas a perceber que estes efeitos meio estranhos que tens andado a sentir também são extensíveis aos teus e que eles também andam a sentir, exactamente, a mesma coisa. E é aí que começas a perceber, verdadeiramente, o que significa chegar aos quarenta. Aos vintes anos tens urgência em viver. Como se um jogo de níveis se tratasse. O objectivo é só chegar ao próximo nível. Custe o que custar. O sangue pulsa-te nas veias e tens uma vida inteira à tua espera. Queres sorver tudo. O bom, o menos bom, o péssimo e, por vezes, o intragável. Faz parte. Só experimentando tudo é que poderás ter o conhecimento suficiente para, depois – mais tarde – conseguires escolher em consciência o que é melhor par ti. Aos vinte anos queres sair de casa. Queres ver como é o mundo lá fora. Queres ver o mundo de fora. Duas directas na mesma semana? «Faz-se na boa». Queremos assumir o mundo adulto sem, no entanto, deixar de ser adolescente. E não é que lá vamos conseguindo? Aos vinte anos és rebelde por natureza. E ser rebelde, aqui, não é sinónimo de ser marginal. É fazer muitas asneiras sim, mas não significa que o sejas porque não te revês na sociedade ou porque queres chamar a atenção. Não. És rebelde porque tens vida a correr-te no corpo e isso tem de se manifestar de alguma maneira. Passas tanto tempo virada para o mundo lá fora, para as experiências, para as vivências que te vais esquecendo do mundo cá dentro. O teu mundo. E eis que, aos poucos, começa a acontecer uma coisa maravilhosa. Sentes que começas, de facto, a viver. Tudo o que já viveste traz-te a experiencia necessária para, agora, serenares. E que não se pense que é porque já não podemos com uma gata pelo rabo, porque não o é. É porque as prioridades começam a mudar, profundamente. Se aos vinte anos o que mais querias era passar o maior de número de horas seguidas fora de casa, à porta dos quarenta, regressas a casa. Usufruis, finalmente, do teu sofá – com uma boa chaise longue – e substituis a cerveja por um bom copo de vinho – e até começas a querer saber mais sobre castas. Aos vinte anos tudo são incertezas. Depois logo se vê. Aos vinte é hora de arriscar. Depois chegam os quarenta e percebes que aos quarenta é hora de riscar. Riscar o que não te interessa, o que não te serve, o que não condiz contigo. Perdes menos tempo com o desnecessário. És muito mais selectiva. E isso não significa que passes a ser prepotente ou arrogante. Não é isso. É apenas teres a clarividência para ires ao encontro apenas daquilo que te faz sentido. Aos quarenta começas a ter gosto de cuidar de ti. Verdadeiramente. Mesmo que isso seja uma consequência quase obrigatória de tentares adiar, o mais que conseguires, as marcas próprias da idade. Aos quarenta, um jantar com amigos não é apenas mais um jantar com amigos. Aos quarenta cada jantar é uma celebração à vida, uma fonte de conhecimento, uma partilha de experiências. Aos quarenta um dia não é apenas mais um dia. Aos quarenta um dia é uma nova oportunidade que a vida te dá para seres feliz. E aos quarenta desperdiças, cada vez menos, as oportunidades que a vida te dá. Aos quarenta vais. Sem medo. Aos quarenta és. Sem filtros. Aos quarenta vives. Aos quarenta já não tens urgência em viver, mas tens urgência em sentires-te viva. Talvez as músicas tenham razão. Talvez os quarenta sejam os novos vinte. Talvez a ternura esteja nisso mesmo. No facto da vida nos reservar sempre o melhor para o fim. E, aos quarenta, descobres que o melhor da vida és tu.

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13
Jun17

...

By, JUX

Posso [ainda] não ter aprendido tudo sobre o que é amar, mas escusavas de me ter ensinado [tão bem] o que é ter de deixar de gostar.

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12
Jun17

...

By, JUX

Talvez te peça para me possuíres o corpo. Mas, isso, qualquer um consegue fazer. A verdadeira conquista acontece quando, sem te pedir, me tiveres possuído a alma.

08
Jun17

#diadosmelhoresamigos

By, JUX

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Os nossos amigos são sempre os melhores.

Com os amigos sorrimos, mas é com os melhores amigos que choramos.

Com os amigos vamos. Com os melhores amigos ficamos.
Com os amigos conhecemo-nos. Com os melhores amigos reconhecemo-nos.

Conversamos com os amigos. Com os melhores amigos, na maior parte das vezes, não precisamos de conversar.
Os amigos estão. Os melhores amigos são.

Os nossos amigos são sempre os maiores.

Porque de todos os amigos que podia ter, a vida quis que eu tivesse os melhores!

07
Jun17

...

By, JUX

vou continuar a sorrir07.06.2017.jpg

 

8 anos…

Podia jurar que foram 80. Sabem-me a 80 anos. Continuam a parecer-me mais de 80 anos.  E, 80 anos já são uma eternidade, não são? É isso mesmo que sinto. Uma eternidade de tempo entre nós.

Continuo a sorrir. Foi assim que aprendi contigo. A sorrir. Fizeste de mim uma menina feliz e as meninas quando são felizes sorriem, não é?

Sabes? Tenho sempre tanta coisa para dizer, para escrever, para acrescentar e esta é a única altura em que me faltam as palavras. Talvez porque tas disse todas e ainda bem. Se calhar é por isso que [ainda] sorrio.

É, absolutamente, impossível não sorrir quando falo de ti. Aliás, é quase impossível não gargalhar. 

Lembras-te quando foste comigo – ias sempre comigo – comprar as minhas primeiras calças de marca, à baixa de Lisboa – depois de eu ter junto o dinheiro para esse meu capricho –, a uma loja que se chamava Piccolina e, já fartos de palmilhar a Rua Augusta, me perguntaste com esse teu ar muito convicto: «Onde raio fica essa loja – a Chicho Lina?». Na verdade, não foi «raio» que disseste. 

E aquela vez em que eu cheguei a casa e comentei contigo que tinha vindo de casa da minha melhor amiga e que, lá por casa, se faziam 3 bolos de cada vez por serem 5 pessoas a comer. Lembraste o que me perguntaste? «Poça e batem a massa onde? Na máquina de lavar roupa?». Na verdade, não foi «Poça» que disseste.

Depois também houve aquela vez em que eu estava no computador e por algum motivo que, agora, já não me recordo, visitava uma página que se chamava Bet and Win, e quando eu te repeti o nome tu, espantado, afirmaste: «Porra, Betadine?». Na verdade, não foi «porra» que disseste.

Ficava aqui a noite toda a escrever. Alias, ficava dias. Ou melhor, podia ficar, aqui, uma vida inteira a falar de ti que as palavras iam sempre sair embargadas, mas nunca acabariam.

Fazes-me falta. E isto não há outra forma de o dizer. Não há, aqui, formas bonitas para o dizer como faço nos meus textos, em que ponho as palavras todas a condizer. 

Por muito mais que procure não encontro, efectivamente, outra maneira de o dizer. Fazes-me TANTA falta.´

Já não sinto falta dos presépios que me fazias com uma base de esferovite onde assentava o musgo verde – às vezes, cheio de bichos – que íamos apanhar ao monte. Porque isso fizemos na altura que o deveríamos ter feito e eu sou grata por isso.

Já não sinto falta de todas as vezes que me ias levar e buscar, fosse aonde fosse; à escola, a um passeio, a casa de uma amiga, ao comboio. Tinha sempre alguém para dizer adeus. Já não sinto falta porque isso fizemo-lo quando o deveríamos ter feito e sou tão mais preenchida por dentro. De afectos.

Já não sinto falta dos cigarros que fumámos juntos. Fumámo-los em consciência – com a mesma consciência que nos dizia como isso nos fazia mal. Mas soube-nos tão bem. Foi isso que ficou. Já não sinto falta porque isso fizemo-lo quando o deveríamos ter feito.

Já não sinto falta do que vivi porque foi isso mesmo que aconteceu. Vivi-o. Vivi-te. E sou-te tão grata por isso. 

E é por isso que [ainda] sorrio. Porque fizemo-lo quando o deveríamos ter feito.

Fazes-me falta pelo o que ficou por viver. Pelo o que me faltou viver a teu lado. Por todas as conversas que gostaria ainda de ter contigo. Por todas as coisas que ainda gostava de te mostrar e por todos os abraços que ainda gostava de receber.

Fazes-me falta no meu presente! Porque no meu passado tu estiveste lá. Sempre. E sou-te tão grata por isso. 

À minha maneira lá te vou mostrando o que que por, aqui, tenho andado a fazer e, à minha maneira, continuo a pedir-te que me orientes, que me protejas e que me encaminhes.

Sei que o fazes. À tua maneira.

Vou continuar a sorrir. Porque é impossível não sorrir quando falo de ti. Fizeste de mim uma menina feliz e as meninas quando são felizes sorriem, não é? E se calhar é só por causa disso que [ainda] sorrio.

8 anos…

Foda-se, podia jurar que passaram 80 anos, Pai! Só porque, na verdade, «foda-se», seria uma coisa que tu dirias.

AMO-TE, meu querido pai.

04
Jun17

Os homens e a síndrome de D. Sebastião.

By, JUX

Ontem, falava com umas amigas e, entre as coisas quotidianas que merecem o devido destaque numa conversa entre mulheres «Estou-tão-gorda-não-estás-nada», acabámos, inevitavelmente, a falar mais uma vez dessa espécie que, ao fim deste tempo todo, ainda nos deixam sem algumas – tantas vezes, muitas – respostas. Os homens. Sim. Tal como vocês, há muito, já suspeitam, nós – as mulheres -, ou pelo menos algumas de nós, falamos de vós. Falamos na mesma proporção em que sabemos que vocês também falam de nós. É-nos intrínseco. A todos. Aos homens e às mulheres. Partilhamos com os nossos pares a sensação de estarmos, arrebatadamente, apaixonadas e partilhamos também, com todo o nosso fervor, o fel que nos corre nas veias quando deixamos de o estar – ou quando ainda estamos, mas queríamos muito já não estar. Ontem não foi diferente. Após um agradável jantar – que nos faz acordar de uma espécie de letargia de uma semana de trabalho – demos, mais uma vez, cumprimento à tentativa de tentar perceber como funciona a mente humana. Sim, claro que as mulheres falam de roupa e de maquilhagem, mas desengane-se quem pensa que são esses os temas predominantes da noite. Não são. Falamos de nós; falamos de vós e falamos, essencialmente, dessa forma tão diferente de sentir entre nós e vós ou, pelo menos, dessa forma tão díspar de o demonstrar. E, ontem, à semelhança do que já tinha acontecido noutras conversas de outros jantares, acabámos por concluir que há homens – mais do que aqueles que gostaríamos – que sofrem, gravemente, da síndrome de D. Sebastião. Confusos? Eu passo a explicar: Diz a lenda que El Rei D. Sebastião desapareceu na batalha de Alcácer- Quibir sem deixar rasto. Diz também a lenda que o Rei iria voltar a aparecer a qualquer altura, num dia de nevoeiro. Até hoje ainda não voltou. Mas eu desconfio que existem, por aí, algumas almas perdidas que ainda acreditam, afincadamente, no seu regresso – tal e qual como acontece com algumas de nós, quando nos confrontamos com homens que desaparecem das nossas vidas sem deixar rasto. Ficamos, ali, a olhar para os dias de nevoeiro, na esperança que eles voltem a aparecer e, com um pouco de sorte, montados no mítico cavalo branco. Só que não. Quem nunca? Quem nunca teve um relacionamento, um affair, um encantamento, uma paixão, uma paixoneta ou mesmo uma amizade colorida em que do nada; sem nada fazer prever, esse relacionamento, esse affair, esse encantamento, essa paixão, essa paixoneta ou mesmo essa amizade colorida, deixa de existir, abruptamente, porque a pessoa também já não existe. Não porque tenha morrido – achamos nós –, mas porque, simplesmente desapareceu. Eclipsou-se. Evaporou-se. Fez-se invisível num acto, desesperado, de magia. Quem nunca? Quando a aproximação com o sexo oposto não corre bem – e, agora, não importa, aqui, apontar os motivos, culpas ou responsabilidades – o risco da coisa não vingar é grande. Quando as coisas começam a esfriar; quando começamos a deixar as borboletas do estômago fugirem e quando as pernas deixam de ficar bambas, de uma forma mais ou menos civilizada, cada um vai lamber as feridas para outro lado. Acabou. Existe um ponto final na nossa história. Mas, e quando o ponto final é substituído por reticencias? E quanto está tudo, supostamente, bem? E quando não há quaisquer indícios de que, em breve, nos vão largar uma bomba nas mãos? E quando, ontem, nos despedimos com a habitual mensagem de «Boa-noite, dorme bem.» e, hoje, a mensagem de «Bom dia, dormiste bem?» já não chega? O que fazemos com isso? – E esqueçam a solução tentadora de mandar-o-telefone-contra-a-primeira-parede-que-vos-aparece-pela-frente, porque não é isso que vai fazer com que eles voltem a aparecer e, além de uma dor de corno ainda ficamos com um telefone a menos e uma parede toda escavacada. As mulheres, de uma forma geral, são dotadas de um sentido de perspicácia apurado – acho que é, aqui, que entra o sexto sentido – e depressa percebem o que a [ausência de] mensagem quer dizer. Conseguimos, por norma, ler os sinais – ou a ausência deles. No entanto, ainda existem situações, circunstâncias e, principalmente, atitudes – ou a ausência delas – que continuamos a não perceber. Por muito esforço que façamos – e acreditem que passamos dias e noites a queimar pestana com isto – [ainda] não conseguimos perceber essa vossa facilidade e destreza em se fazerem desaparecer sem usarem os mínimos para os quais todos os seres humanos deveriam estar instruídos – a boa educação. Sim, meus caros, nós conseguimos perceber com alguma facilidade quando vocês se põem ao fresco ou quando perderam «a pica» - infelizmente, percebemo-lo é da forma mais parva. O que [ainda] não conseguimos perceber é porque é que o fazem dessa forma. Ou melhor, com essa ausência de forma. Sem um «Adeus, até à próxima» ou mesmo um «Adeus, até nunca mais!». Há mínimos, caramba! Até mesmo para as coisas que correm mal. Até mesmo para o péssimo há mínimos. E, parece-me que, aqui, os mínimos deviam ser sempre a boa educação. Só que não. E lá ficamos nós em luta connosco a tentar perceber se a culpa foi nossa ou se não tivemos sequer tempo para ter culpa. E eis que, surpreendentemente, a vida continua. Continua sempre. Arranjamos sempre forma de a fazer continuar. Com mais ou menos mazelas, voltamo-nos a erguer e vestimo-nos, convenientemente, para a próxima batalha – e, desta vez, juramos que vamos mais protegidos. Para aleijar menos – dizemos. E quando temos a certeza que aquela pessoa que, em tempos, desapareceu, já é um peão fora da jogada; uma carta fora do baralho; uma pedra fora do sapato; eis que a criatura resolve aparece para fazer xeque-mate. Se o desaparecimento já é mau, o [re]aparecimento é inqualificável. Não há palavras que consigam exprimir o que é que uma mulher sente dentro de si relativamente a esses D. Sebastiões da nossa vida. O que vos dá o direito de acharem que podem – ao fim de meses, anos e muita vida depois – aparecer da mesma forma que desapareceram? O que vos dá o direito de pensar que podem retomar uma coisa que não tiveram sequer coragem de terminar? Deixem-me esclarecer-vos uma coisa. De uma vez por todas. Aquela mulher que vocês deixaram pendurada a determinada altura da vossa vida ficou, precisamente, lá. No passado. Desapareceu com vocês. Já não existe. Evaporou-se. Também se teve de fazer desaparecer num acto, desesperado, de magia. Transformou as reticencias num ponto final. Por isso, meus caros, sempre que tiverem a tentação de desaparecerem ao estilo de D. Sebastião na esperança de, um dia, voltarem com a convicção de ganhar a batalha, lembrem-se de que «dos mortos não reza a história». Só conta quem está vivo e vocês morreram no dia em que tentaram matar a [nossa] história.

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